Quando uma gestante decide comer "mais saudável", frequentemente substitui o açúcar por adoçantes. O iogurte integral vira iogurte "light". O suco natural vira suco diet. O achocolatado normal vira a versão "zero açúcar". Essa substituição parece cuidadosa, e é exatamente aí que mora o problema que motivou nossa pesquisa.
Em 2022, publiquei como autora principal um estudo na revista Food Additives and Contaminants, publicação internacional especializada em segurança alimentar, avaliando o consumo de adoçantes de baixa caloria em gestantes brasileiras. Foi o primeiro trabalho do gênero com amostra nacional. Aqui está o que encontramos.
O que são adoçantes de baixa caloria
Adoçantes de baixa caloria são substâncias que conferem sabor doce aos alimentos com contribuição calórica mínima ou nula. Os mais utilizados pela indústria alimentícia brasileira pertencem a diferentes classes químicas, e, na gestação, cada um deles levanta questões específicas sobre segurança e consumo.
Os três mais encontrados na dieta das participantes do estudo foram:
- Acesulfame-K: presente em refrigerantes, iogurtes e produtos de confeitaria. Estável ao calor.
- Aspartame: muito utilizado em bebidas diet e adoçantes de mesa. Contraindicado para portadores de fenilcetonúria.
- Ciclamato: frequente em adoçantes de mesa e sucos em pó. Possui limite de ingestão diária aceitável estabelecido pela EFSA e JECFA.
adoçantes dominantes
na dieta das gestantes avaliadas: acesulfame-K, aspartame e ciclamato. A exposição encontrada estava dentro dos limites de segurança estabelecidos pelas agências regulatórias internacionais. O dado que preocupa é outro: a maioria das mulheres os consumia sem saber.
O que o estudo revelou
A pesquisa avaliou a ingestão dietética de adoçantes de baixa caloria por meio de recordatórios alimentares aplicados em gestantes participantes do estudo MINA-Brasil. Os resultados mostraram que a exposição aos adoçantes identificados, em termos absolutos, estava dentro dos limites de segurança estabelecidos pela Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives (JECFA).
O achado que não aparece nos comunicados de imprensa, mas que considero o mais importante do trabalho, é este: a maioria das participantes consumia adoçantes de forma inadvertida: sem ter consciência de que os produtos que escolhiam os continham.
Por onde esses ingredientes entram na dieta
As principais fontes de exposição identificadas no estudo foram:
- Bebidas não alcoólicas, refrigerantes diet/zero, sucos em pó, achocolatados "light"
- Adoçantes de mesa (sachês e gotas) usados no café, chá e iogurte
- Produtos de confeitaria, biscoitos recheados e bolos industrializados com redução de açúcar
- Sobremesas lácteas, iogurtes, flans e gelatinas "zero" ou "light"
Nenhum desses itens tem aparência de "alimento de risco". Todos estão nos supermercados ao lado dos alimentos convencionais, muitas vezes embalados com apelos visuais de saúde, "fit", "zero", "sem açúcar", "leve".
Na gestação, saber o que se come importa. Não para criar restrições desnecessárias, mas para fazer escolhas com consciência.Dra. Claudia Choma · Pesquisa publicada na Food Additives and Contaminants, 2022
O que significa "dentro do limite de segurança"
É importante contextualizar: os limites de segurança para aditivos alimentares são estabelecidos com base em estudos toxicológicos e incluem margens de proteção substanciais. O fato de a exposição das participantes ter ficado abaixo desses limites é, tecnicamente, uma boa notícia.
No entanto, dois pontos merecem atenção:
- Consumo cumulativo: uma gestante que consome iogurte light no café da manhã, suco em pó no almoço e gelatina zero no jantar está acumulando exposição de três fontes diferentes ao longo do dia.
- Evidência em desenvolvimento: a segurança de alguns adoçantes na gestação ainda é objeto de investigação ativa. O princípio da precaução recomenda moderação quando a evidência não é conclusiva.
Como identificar adoçantes nos rótulos
Procure na lista de ingredientes os seguintes nomes: acesulfame potássico (INS 950), aspartame (INS 951), ciclamato de sódio (INS 952), sacarina sódica (INS 954), sucralose (INS 955), esteviol (INS 960). Na gestação, a preferência por alimentos naturalmente não adoçados, ou adoçados com açúcar em quantidade moderada, é, via de regra, mais prudente do que a substituição sistemática por versões "diet" ou "light".
O que muda na prática clínica
A conclusão mais importante que carrego deste estudo para o consultório não é a lista de adoçantes nem os números de exposição. É a constatação de que gestantes precisam de informação acessível para fazer escolhas conscientes, e que essa informação raramente chega até elas de forma clara.
Parte do meu trabalho no acompanhamento nutricional de gestantes é exatamente esse: traduzir a linguagem técnica dos rótulos em escolhas práticas, adaptadas à rotina e à realidade de cada mulher.
Para concluir
Adoçantes na gestação, nas quantidades consumidas pela maioria das mulheres brasileiras, não representam risco imediato confirmado pela evidência atual. O problema mais relevante é a falta de consciência sobre o consumo, e a ausência de orientação profissional para navegar um mercado alimentar onde "saudável" nem sempre significa o que parece.
Para orientação individualizada sobre alimentação na gestação, estou disponível para atendimento presencial em Curitiba e por videochamada para pacientes do Brasil e do exterior.
Adoçante faz mal na gravidez?
No nosso estudo de 2022, a exposição das gestantes brasileiras ficou dentro dos limites de segurança das agências regulatórias internacionais. O ponto de atenção é outro: a maioria consumia adoçantes sem saber, em produtos vendidos como light, zero ou fit. A evidência sobre alguns adoçantes na gestação ainda está em desenvolvimento, e o princípio da precaução recomenda moderação.
Como identifico adoçantes nos rótulos?
Procure na lista de ingredientes nomes como acesulfame potássico (INS 950), aspartame (INS 951), ciclamato de sódio (INS 952), sacarina sódica (INS 954), sucralose (INS 955) e esteviol (INS 960).
Vale a pena trocar açúcar por adoçante na gestação?
Via de regra, a preferência por alimentos naturalmente não adoçados, ou adoçados com açúcar em quantidade moderada, é mais prudente do que a substituição sistemática por versões diet ou light. O acompanhamento profissional ajuda a ajustar isso à sua realidade.


