Em agosto de 2026 eu apresentei "Além do Prato: Estratégias Nutricionais para Superar Desafios Alimentares em Crianças" no 1º Congresso de Pediatria do Hospital de Clínicas da UFPR, em Curitiba. A palestra fez parte de uma mesa-redonda chamada "Da consulta à mesa: manejo ambulatorial de dificuldades alimentares na infância", no Auditório Principal.
A mesa tinha três cadeiras, e isso não foi acaso de programação. Quando uma criança não come, quase nunca existe uma causa só, e é por isso que quase nunca existe uma única solução.
A mesa tinha três cadeiras
Antes de mim, falou o Dr. Cicero Alaor Kluppel, sobre sinais de alerta que pedem intervenção médica. Depois de mim, falou Élida Juliane Twerdochrib, sobre a abordagem terapêutica para dificuldades alimentares sensoriais. No meio, eu falei sobre estratégias nutricionais. Um médico, uma terapeuta ocupacional e uma nutricionista, olhando para a mesma criança por três ângulos diferentes.
A estrutura da mesa é o argumento inteiro deste texto. Dificuldade alimentar na infância raramente se resolve com um profissional só, e boa parte do sofrimento que vejo no consultório vem de uma família tentando resolver sozinha algo que precisava de time.
Quantas crianças, afinal
das crianças em idade pré-escolar apresentam seletividade alimentar, dependendo do país e do critério usado. Numa revisão de 16 estudos com 2.942 crianças, as intervenções que combinaram mais de uma abordagem foram as únicas que mostraram melhora em todos os estudos analisados.
É um número grande, e eu prefiro dizer isso sem alarme: é comum. Comum não quer dizer que se resolve sozinho, e não quer dizer que a família precisa aguentar calada até passar.
Quando é caso de médico
Existem sinais que pedem avaliação médica antes de qualquer outra coisa: falha ou estagnação de ganho de peso, perda de peso, engasgos e tosse durante a refeição, vômitos recorrentes, sinais de alergia alimentar, cansaço e palidez, ou a exclusão de grupos alimentares inteiros por semanas seguidas. Palidez e cansaço, em especial, também aparecem quando falta ferro, e escrevi sobre como identificar isso no artigo sobre anemia em crianças.
Esse é o limite claro do meu trabalho. Eu não diagnostico causa médica, e não deveria. Meu papel aqui é reconhecer o sinal e encaminhar rápido, não tentar resolver com ajuste de cardápio o que precisa de investigação clínica.
Quando é caso de terapia sensorial
Tem uma criança diferente, que não rejeita o alimento, rejeita a textura, o cheiro, a temperatura ou a cor dele. Come só o que é crocante, ou só o que é liso, ou entra em pânico se um alimento encosta no outro no prato. Essa criança não está sendo difícil por birra. O sistema sensorial dela processa esses estímulos de um jeito diferente, e é aí que entra a terapia ocupacional com abordagem sensorial, um trabalho que a nutrição sozinha não alcança.
O que a nutrição resolve, e o que ela não resolve
Esta é a parte mais honesta do texto. O que eu consigo fazer: montar uma oferta adequada para a idade, garantir densidade de nutrientes mesmo com pouco volume aceito, ajustar consistência e textura dentro do que a criança tolera, organizar rotina e intervalo das refeições, e monitorar crescimento e possíveis carências ao longo do tempo.
Nutrição resolve muita coisa, e eu preciso ser honesta sobre o que ela não resolve. Se a criança tem uma causa médica não investigada, ou uma dificuldade sensorial real, eu posso montar o prato mais perfeito do mundo que ele vai voltar intacto.Dra. Claudia Choma · CRN 8-320
O que eu não resolvo sozinha: uma causa médica ainda não diagnosticada, uma disfunção sensorial real, ou um conflito familiar já instalado em torno da mesa. Reconhecer esse limite não é fraqueza profissional, é o que separa um plano que funciona de um plano bonito no papel.
A mesma comida, outra forma de oferecer
No congresso, mostrei dois exemplos que uso nas oficinas que dei enquanto coordenava o GENAI. Um prato com milho na espiga inteira ao lado de um prato com o mesmo milho debulhado e uma colher. Um prato com frutas cítricas cortadas de formas diferentes, gomo, cubo, raspada. A mesma comida, outra forma de oferecer.
Não é trocar o alimento, é mudar o corte, o formato, a temperatura e o momento da oferta. Esse é o mesmo raciocínio que uso quando falo sobre os primeiros meses de introdução alimentar, e detalho mais no artigo sobre os primeiros sabores.
O que não funciona
Forçar, barganhar, prometer sobremesa, ligar a televisão para a criança comer sem perceber. Tudo isso ensina o oposto do que se quer: a criança aprende a comer desconectada dos próprios sinais de fome e saciedade, e a refeição vira um campo de disputa. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras é claro nesse ponto: pode ser preciso oferecer um alimento mais de oito vezes antes que a criança aceite. Oito vezes é muito mais paciência do que qualquer família costuma imaginar que precisa ter, e é exatamente por isso que cortar alimentos no escuro raramente é a resposta certa.
Por que eu insisto em time
A revisão dos 16 estudos, que citei aqui em cima, trouxe uma conclusão que eu acho importante destacar: intervenções isoladas, sensoriais ou nutricionais ou só com orientação aos pais, renderam menos do que abordagens multiprofissionais. As intervenções que combinaram mais de uma abordagem foram as únicas que mostraram melhora consistente em todos os estudos analisados. A mesa daquele congresso não foi acaso de programação. Foi o desenho certo, montado por gente que estuda este tema.
Sinais de que a dificuldade alimentar precisa de avaliação
Perda ou estagnação de peso, engasgo ou tosse durante as refeições, vômitos frequentes, recusa de grupos alimentares inteiros por mais de algumas semanas, refeições que passam rotineiramente de 30 a 40 minutos, choro ou pânico na hora de comer, ou um repertório de menos de 15 a 20 alimentos diferentes. Qualquer um desses sinais já justifica procurar avaliação, sem esperar passar sozinho.
Um congresso que constrói hospital
O 1º Congresso de Pediatria do HC-UFPR reuniu, em três dias, 39 mesas-redondas, 18 miniconferências e 12 simpósios satélite, com cerca de 147 palestrantes distintos em 4 salas simultâneas. Uma escala grande para um congresso em sua primeira edição.
Ele teve um objetivo além da ciência: arrecadar recursos para o HCzinho, o futuro Instituto de Pediatria do Hospital de Clínicas da UFPR, que será o primeiro hospital pediátrico 100% público do Paraná. São cerca de 120 leitos de internação e 35 leitos de UTI pediátrica planejados, atendimento inteiramente pelo SUS, com obras previstas para começar ainda em 2026.
Participar desse congresso não foi só apresentar um trabalho. Foi fazer parte de um esforço coletivo por um hospital público infantil que a cidade ainda não tem.
Para concluir, com honestidade
A maior parte das crianças que "não comem" não tem uma doença por trás. E, mesmo assim, a família sofre de verdade, todos os dias, em cada refeição. O trabalho que eu faço não é fazer a criança comer hoje. É devolver a essa família uma refeição que não seja um campo de batalha, e isso, quase sempre, exige mais de uma pessoa olhando para o mesmo problema.
Qual profissional procurar quando a criança não come?
Depende do que está por trás, e por isso a avaliação costuma começar pelo pediatra. Se houver perda de peso, engasgos, vômitos ou sinais de alergia, é caso de investigação médica. Se a recusa é ligada a textura, cheiro ou temperatura, entra a terapia ocupacional com abordagem sensorial. A nutrição cuida da oferta, da densidade de nutrientes, da consistência, da rotina e do acompanhamento do crescimento. Nos casos mais difíceis, os três caminham juntos.
Quais são os sinais de alerta de dificuldade alimentar?
Perda ou estagnação de peso, engasgo ou tosse durante as refeições, vômitos frequentes, recusa de grupos alimentares inteiros por semanas, refeições que passam rotineiramente de 30 a 40 minutos, choro ou pânico na hora de comer, e um repertório muito restrito, abaixo de 15 a 20 alimentos. Qualquer um desses pede avaliação, não espera.
Isso é frescura ou birra?
Nem uma coisa nem outra, na maioria das vezes. Seletividade alimentar aparece em algo entre 25% e 53% das crianças em idade pré-escolar, conforme o país e o critério. É comum, o que não significa que se resolva sozinha nem que a família tenha que aguentar calada.
Forçar a criança a comer funciona?
Não, e costuma piorar. Forçar, barganhar, prometer sobremesa ou distrair com tela ensina a criança a comer sem prestar atenção nos próprios sinais de fome e saciedade, e associa a refeição a conflito. A orientação do Guia Alimentar é oferecer com paciência: uma criança pode precisar experimentar um alimento mais de oito vezes até aceitá-lo.
Criança seletiva melhora sozinha com o tempo?
Parte melhora, parte não. O que a literatura mostra é que abordagens isoladas rendem menos: numa revisão de 16 estudos, as intervenções que combinaram mais de um componente foram as que mostraram melhora consistente. Esperar é razoável quando a criança cresce bem e o repertório é razoável. Quando há sinal de alerta, esperar custa caro.

