Um suco em pó de morango. Uma bala de gelatina. Uma gelatina pronta colorida. São alimentos que parecem inofensivos, e que fazem parte do cotidiano de quase todas as crianças brasileiras. O problema está no que está dentro deles.
Em 2023, publicamos na Food Additives and Contaminants, revista científica internacional especializada em segurança de alimentos, os resultados de uma pesquisa que avaliou a exposição de 323 pré-escolares de 2 a 5 anos do Paraná a corantes artificiais do tipo azo. Os dados revelaram algo que todos os pais precisam conhecer.
O que são corantes do tipo azo
Corantes azo são um grupo de aditivos alimentares utilizados para conferir ou intensificar cores em alimentos processados. Estão presentes em sucos em pó, refrigerantes, lácteos coloridos, confeitos, balas, gelatinas, sobremesas industrializadas e uma série de produtos com apelo visual para crianças.
A regulamentação de uso desses aditivos varia entre países. No Brasil, a Anvisa define a Ingestão Diária Aceitável (IDA) para cada corante autorizado, um valor calculado para representar a quantidade que pode ser consumida diariamente ao longo de toda a vida sem risco mensurável à saúde.
o limite diário aceitável: o corante Amaranto (INS 123) atingiu quase quatro vezes a IDA nos maiores consumidores da amostra. O Sunset Yellow (INS 110) chegou a 85% do limite no cenário mais crítico. Ambos estavam presentes principalmente em sucos em pó, refrigerantes e produtos lácteos coloridos.
O que encontramos nas 323 crianças do Paraná
A pesquisa foi conduzida com pré-escolares de 2 a 5 anos de Guaratuba, no litoral do Paraná. A exposição dietética aos corantes foi estimada por meio de recordatórios alimentares aplicados às mães ou cuidadores, associados a tabelas de composição dos alimentos consumidos.
Os achados mais relevantes:
- Amaranto (INS 123): nos maiores consumidores, a exposição atingiu aproximadamente quatro vezes a IDA estabelecida.
- Sunset Yellow (INS 110): no cenário de maior consumo, chegou a 85% da IDA.
- Principais fontes de exposição: sucos em pó, refrigerantes, produtos lácteos coloridos e confeitos.
É importante sublinhar que esses valores elevados foram observados nos percentis mais altos de consumo, não representam a média das crianças da amostra. Mas representam um sinal de alerta real para crianças com padrão alimentar rico nesses produtos.
Por que os corantes azo preocupam pesquisadores
Os corantes do tipo azo estão associados, em estudos anteriores, a possíveis efeitos sobre o comportamento infantil, especialmente hiperatividade, quando consumidos em conjunto com o conservante benzoato de sódio. Em 2010, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) emitiu parecer que levou à exigência de rotulagem de advertência em produtos que contenham seis corantes específicos, entre eles o Amaranto e o Sunset Yellow.
No Brasil, esses corantes seguem autorizados dentro dos limites estabelecidos pela Anvisa. A discussão científica sobre seus efeitos continua ativa, o que reforça a importância de monitorar o consumo, especialmente em crianças pequenas.
Ensinar a ler rótulos faz parte do que faço no consultório. Não para criar medo, mas para criar escolhas conscientes.Dra. Claudia Choma · Food Additives and Contaminants, 2023
As fontes de exposição que passam despercebidas
A maioria das famílias não percebe a quantidade de corantes artificiais presente nos produtos que oferece às crianças diariamente. Isso ocorre porque:
- Os ingredientes aparecem nos rótulos com nomenclatura técnica (INS 110, INS 123) ou com nomes pouco conhecidos.
- Produtos com apelo visual infantil, cores brilhantes, personagens animados nas embalagens, são, com frequência, os que mais contêm corantes artificiais.
- A exposição acumula ao longo do dia: suco em pó no café da manhã, bala após o almoço, gelatina no jantar representam três fontes distintas de um mesmo tipo de aditivo.
Nomes para identificar nos rótulos
Procure na lista de ingredientes: Amaranto (INS 123), Amarelo Sunset / Amarelo FCF (INS 110), Tartrazina (INS 102), Vermelho 40 / Allura Red (INS 129), Ponceau 4R (INS 124), Azul Brilhante (INS 133). A regra prática mais simples: quanto mais colorido o produto industrializado, maior a chance de conter corantes artificiais. A substituição gradual por alimentos naturalmente coloridos, frutas, legumes, verduras, é sempre a estratégia de menor risco.
Para concluir
A maioria das crianças brasileiras não está em risco imediato por consumir corantes artificiais em quantidades moderadas. O problema real é a cumulatividade da exposição em crianças com padrão alimentar concentrado em ultraprocessados, e a falta de informação acessível para que as famílias possam fazer escolhas mais conscientes.
Para orientação sobre alimentação saudável na infância, estou disponível para atendimento presencial em Curitiba e por videochamada para pacientes do Brasil e do exterior.
O que são corantes do tipo azo?
São aditivos usados para dar cor a sucos em pó, refrigerantes, balas, gelatinas e lácteos coloridos. No Brasil, são autorizados pela Anvisa dentro de limites de ingestão diária aceitável definidos para cada corante.
Corante artificial faz mal para criança?
Estudos anteriores associam alguns corantes azo, em conjunto com o conservante benzoato de sódio, a efeitos sobre o comportamento infantil, como hiperatividade. No nosso estudo com 323 pré-escolares do Paraná, o Amaranto chegou a quase 4 vezes o limite diário aceitável nos maiores consumidores. A discussão científica segue ativa, o que recomenda moderação.
Como reduzir a exposição do meu filho aos corantes?
Lendo rótulos (procure nomes como INS 110 e INS 123) e reduzindo a frequência de sucos em pó, refrigerantes e produtos coloridos com apelo infantil. Não é sobre proibir, é sobre escolher com consciência.


