Saiu hoje, numa das revistas mais rigorosas da área de nutrição, um trabalho que tem o meu nome entre os autores: uma revisão de escopo sobre os determinantes das concentrações de elementos potencialmente tóxicos no leite materno. Tradução do título acadêmico: o que faz com que metais como chumbo, cádmio, mercúrio e arsênio apareçam no leite, e em que quantidade.
Eu sei como esse tipo de manchete chega na cabeça de uma mãe. Você passou a gravidez inteira ouvindo o que não podia comer, agora está amamentando com a melhor das intenções, e alguém te manda um print dizendo que tem "metal pesado no leite materno". O coração aperta. Então eu vou dizer com todas as letras, logo no começo: o leite materno continua sendo o melhor alimento que existe para o seu bebê, e nada nessa revisão muda essa recomendação.
Passei parte da minha trajetória num pós-doutorado no IARC, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde, em Lyon. É um lugar onde se estuda risco a sério, sem alarmismo e sem negacionismo. Aprendi lá uma frase que repito até hoje no consultório: detectar uma substância não é o mesmo que causar dano. Dose, tempo e contexto são tudo.
O que é um "elemento potencialmente tóxico"
São metais e semimetais que existem na natureza e que, em quantidade suficiente, podem fazer mal. Os quatro que mais preocupam quando o assunto é bebê são o chumbo (Pb), o cádmio (Cd), o mercúrio (Hg) e o arsênio (As). Eles não vêm da amamentação em si. Eles entram no corpo da mãe ao longo da vida, pela comida, pela água, pelo ar, pelo cigarro, pelo ambiente, e ficam guardados principalmente no tecido gorduroso e nos ossos.
Durante a lactação, parte do que está estocado no corpo pode ser mobilizado e passar para o leite. No caso do chumbo, por exemplo, ele se acumula no osso junto com o cálcio e pode ser liberado justamente quando o corpo mobiliza cálcio para o bebê. Por isso o leite materno é, ao mesmo tempo, uma fonte de nutrição insubstituível e um espelho do que circula no organismo da mãe.
E aqui vem a parte boa. A revisão organiza esses determinantes em fatores ligados à alimentação, ao ambiente e ao estilo de vida da mãe, ou seja, a maior parte do que influencia esses níveis é mudável. O que é determinante também costuma ser, em boa medida, ajustável.
O que faz subir, segundo a literatura
A revisão reúne o que vários estudos no mundo já mostraram sobre os fatores associados a níveis mais altos desses metais no leite. Os principais são:
- A alimentação da mãe. O que a mãe come aparece no leite. Estudos associam o cádmio a maior consumo de certos vegetais e de salgadinhos, o arsênio ao consumo de alguns grãos e de carne, e o mercúrio a peixes de topo de cadeia e a alguns outros alimentos. Um estudo coreano com 209 mães, por exemplo, encontrou associações claras entre a dieta e a concentração de cada metal.
- O cigarro. Fumar, ou conviver com fumantes, é uma das fontes mais conhecidas de cádmio.
- O ambiente. Morar perto de áreas industriais, de mineração ou de tráfego intenso, e a exposição ocupacional (trabalho com tintas, baterias, solda, certas indústrias) elevam a exposição.
- A água. Em algumas regiões, a água de consumo carrega arsênio ou chumbo, especialmente onde o encanamento é antigo.
- A idade e o histórico de exposição da mãe. Como esses metais se acumulam ao longo de décadas, a carga corporal de uma vida inteira pesa.
Repare numa coisa importante: peixe, vegetais e grãos integrais aparecem em alguns desses estudos. Isso não é um convite para cortar comida de verdade da sua mesa. Esses alimentos trazem nutrientes que o seu bebê precisa, e o peixe, em especial, carrega o ômega-3 que constrói o cérebro dele. O ponto não é eliminar, é escolher bem (peixes menores e menos contaminados no lugar dos grandes predadores, variedade, procedência da água) e olhar o conjunto.
Tirar o peito do bebê com medo de um metal que pode estar em níveis ínfimos, e trocar pela mamadeira preparada com a mesma água da casa, raramente é proteger. Quase sempre é abrir mão de uma proteção comprovada por causa de um risco mal dimensionado.Dra. Claudia Choma · Consultório, junho 2026
As armadilhas que eu mais vejo
A primeira é a culpa. A mãe lê uma notícia dessas e se convence de que envenenou o filho. Não envenenou. A presença desses elementos no leite humano é um retrato do mundo industrializado em que todos nós vivemos, não um veredito sobre a sua maternagem.
A segunda é achar que a fórmula infantil é "mais limpa". Fórmula é um recurso valioso quando é preciso, e eu indico sem hesitar nos casos em que se indica. Mas ela também tem rotas de exposição, a começar pela água com que é preparada, que é a mesma água da sua casa. Trocar peito por mamadeira por medo de metal raramente resolve a equação, e abre mão de tudo que o leite materno faz pela imunidade e pelo desenvolvimento do bebê.
A terceira é o oposto: a negação. "Então não importa o que eu como." Importa. Os estudos são consistentes em mostrar que a alimentação e o estilo de vida da mãe mexem nesses níveis. Não para gerar pânico, e sim para apontar onde dá para agir.
O que realmente importa fazer
- Continue amamentando. A recomendação da OMS, do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria segue a mesma: aleitamento exclusivo até os 6 meses e mantido, com alimentação complementar, até os 2 anos ou mais. Os benefícios são enormes e bem documentados.
- Cuide da sua própria alimentação. Variada, com menos ultraprocessado, com fontes de cálcio, ferro e fibras. Curiosamente, uma boa nutrição materna ajuda o corpo a lidar melhor com a carga desses metais.
- Não fume, e fuja da fumaça dos outros. É a medida de maior impacto sobre o cádmio.
- Cuide da água. Em casa antiga ou região de risco, vale investigar a qualidade da água de consumo.
- Sinalize exposições conhecidas. Se você trabalha ou mora perto de fonte industrial, conte isso para a sua equipe de saúde.
Quando isso merece uma avaliação individual?
Na maioria das mães saudáveis, a conduta é seguir amamentando e cuidar da alimentação, sem exame nenhum. A avaliação mais detalhada faz sentido em situações específicas: exposição ocupacional a metais (baterias, tintas, solda, mineração), moradia próxima a área industrial ou de mineração, água de consumo sabidamente contaminada, ou histórico de pica (vontade de comer terra, tinta, reboco) na gestação. Nesses casos, a conversa deixa de ser geral e passa a ser sua.
Para concluir, com honestidade
Essa revisão não existe para assustar mãe nenhuma. Ela existe porque, para reduzir a exposição dos bebês, primeiro a ciência precisa entender de onde ela vem. É exatamente isso que um trabalho de determinantes faz: mapeia as fontes para que dê para agir sobre elas, em vez de jogar a culpa no leite materno, que é parte da solução e não do problema.
Se você leu até aqui preocupada, eu espero ter te devolvido o chão. E se a sua situação tem alguma das exposições específicas que eu citei, ou se você só quer organizar a própria alimentação nesse período, é disso que eu cuido. Atendo presencialmente em Curitiba e por videochamada para o Brasil e o exterior.
Devo parar de amamentar por causa de metais pesados no leite?
Não. A recomendação de amamentação exclusiva até os 6 meses e mantida até os 2 anos ou mais segue valendo, da OMS ao Ministério da Saúde. Os benefícios do leite materno para imunidade e desenvolvimento são comprovados e superam, na enorme maioria dos casos, o risco desses elementos, que costumam aparecer em níveis muito baixos.
Como reduzir metais pesados no meu leite materno?
Os caminhos com mais evidência são: não fumar nem conviver com fumantes, manter uma alimentação variada e com menos ultraprocessados, cuidar da qualidade da água de consumo e sinalizar à equipe de saúde qualquer exposição ambiental ou de trabalho a metais. Cortar peixe e vegetais não é recomendado, esses alimentos são importantes para você e para o bebê.
A fórmula infantil é mais segura que o leite materno nesse aspecto?
Não necessariamente. A fórmula tem suas próprias rotas de exposição, principalmente a água usada no preparo, que é a mesma água da sua casa. Por isso, trocar o peito pela mamadeira por medo de metais raramente protege o bebê, e abre mão de tudo que o leite materno oferece.
Onde esse estudo foi publicado?
Na revista Critical Reviews in Food Science and Nutrition, uma das mais respeitadas da área, em junho de 2026. É uma revisão de escopo, ou seja, reúne e organiza o que vários estudos já encontraram sobre os fatores que determinam a presença desses elementos no leite humano.


