Em 2016, tive a oportunidade de realizar um pós-doutorado no IARC, a International Agency for Research on Cancer, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde, sediada em Lyon, na França. Era a única nutricionista materno-infantil do Paraná a ter acesso a esse ambiente de pesquisa naquele momento.
Fui com perguntas sobre alimentação, nutrição e saúde de mães e bebês. Voltei com um entendimento mais profundo sobre como as escolhas alimentares dos primeiros anos de vida deixam rastros biológicos que se estendem por décadas, e com algumas certezas revisadas sobre o que faz diferença de verdade na prática clínica.
O que é o IARC, e por que importa para a nutrição materno-infantil
O IARC é a agência da ONU responsável por coordenar pesquisas sobre as causas do câncer em nível global. Sua relevância para a nutrição materno-infantil não é imediata, mas é profunda: parte importante da pesquisa produzida ali investiga como exposições alimentares nos primeiros anos de vida, incluindo o período gestacional e a primeira infância, se associam a riscos de saúde de longo prazo, incluindo cânceres de aparecimento precoce.
Foi nesse contexto que meu trabalho encontrou terreno fértil. A questão central que levei para Lyon era: como a alimentação de gestantes e bebês brasileiros se compara aos padrões estudados em coortes europeias? O que os biomarcadores nutricionais revelam sobre qualidade dietética que os recordatórios alimentares convencionais não capturam?
França, 2016–2017: pós-doutorado realizado no IARC (International Agency for Research on Cancer), agência da ONU especializada em pesquisa sobre câncer. Única nutricionista materno-infantil do Paraná com formação nesse ambiente de pesquisa de excelência global.
O que estudamos em Lyon
O trabalho no IARC envolveu análise de dados de coortes europeias de larga escala, investigando a relação entre exposição dietética materna e desfechos de saúde em filhos. Os principais eixos de investigação foram:
- Biomarcadores nutricionais em gestantes: avaliação de marcadores de exposição a nutrientes específicos (especialmente micronutrientes e compostos bioativos) em amostras biológicas de gestantes participantes de coortes prospectivas europeias.
- Desfechos materno-infantis: associações entre padrões de exposição dietética e desfechos como crescimento fetal, peso ao nascer e indicadores de saúde nos primeiros anos de vida.
- Metodologia de avaliação dietética: limites e possibilidades dos métodos convencionais de inquérito alimentar, um tema que se tornou central em trabalhos posteriores, incluindo minha colaboração atual com a FAO/ONU em ferramentas de avaliação dietética.
Os resultados desse trabalho foram publicados em periódicos internacionais de alto impacto. O mais recente, de 2023, aborda biomarcadores nutricionais e desfechos materno-infantis em coortes europeias, uma linha de pesquisa que continua ativa.
Em Lyon, entendi que a pergunta "o que comer na gravidez" é inseparável da pergunta "que adulto esse bebê vai se tornar". Isso mudou minha prática.Dra. Claudia Choma · Pós-doutorado IARC/OMS, Lyon, 2016–2017
O que o IARC mudou na minha prática clínica
Uma temporada em um centro de pesquisa de excelência global não serve apenas para publicar artigos. Ela muda a forma como você enxerga cada paciente que cruza a porta do consultório. As três mudanças mais concretas que o IARC trouxe para a minha prática:
1. A visão longitudinal da saúde materno-infantil. A pesquisa em coortes europeias mostrou com clareza que os efeitos da nutrição na gestação não se encerram no nascimento. Eles se desdobram em saúde cardiovascular, metabólica e até risco oncológico ao longo de décadas. Essa perspectiva de longo prazo está hoje em cada orientação que dou a uma gestante.
2. A importância dos métodos de avaliação dietética. Aprender com pesquisadores que dedicaram carreiras ao refinamento de como medir o que as pessoas comem me tornou mais cuidadosa com as ferramentas que uso no consultório, e mais honesta sobre os limites do que podemos saber com precisão sobre a dieta de cada paciente.
3. A humildade científica como virtude clínica. O ambiente do IARC é marcado por rigor metodológico e cautela com afirmações. Pesquisadores que trabalham com as maiores coortes do mundo são os primeiros a reconhecer os limites do que a evidência permite concluir. Essa postura chegou ao consultório: evito terrorismo alimentar, evito certezas que a ciência não sustenta, e trabalho com o que o conhecimento atual permite afirmar com segurança.
Por que esse contexto importa para quem me consulta
Nutricionistas há muitos no Brasil. O que diferencia o atendimento de cada um é, em parte, o que cada profissional viu, estudou e questionou ao longo da trajetória. O pós-doutorado no IARC não é um título de parede, é uma perspectiva que está presente em cada consulta, especialmente nas que envolvem gestantes e bebês nos primeiros dois anos de vida.
Quando uma mãe me pergunta se pode comer determinado alimento na gravidez, respondo com base em evidências que vi sendo produzidas nos laboratórios e nas salas de análise de dados de um dos centros de pesquisa mais rigorosos do mundo. Isso não me torna infalível, mas torna cada resposta informada pelo estado mais atual do conhecimento científico disponível.
Como avaliar a qualidade da informação nutricional que você recebe
Antes de seguir qualquer orientação nutricional durante a gestação, vale perguntar: qual é a base científica desta recomendação? Ela é sustentada por estudos em humanos, com amostras representativas? A fonte tem formação especializada em nutrição materno-infantil? Autoridade científica não é garantia de acerto absoluto, mas é o critério mais confiável disponível. Desconfie de orientações que prometem certezas que a ciência não sustenta.
Para concluir
O pós-doutorado no IARC/OMS representou o ponto mais alto de formação científica de uma trajetória que começou nos hospitais de Curitiba em 1989. Não é um título que cito para impressionar, é uma experiência que, concretamente, melhorou a qualidade do cuidado que ofereço a cada gestante, mãe e criança que atendo.
Para atendimento nutricional especializado durante a gestação, amamentação ou nos primeiros anos de vida do seu filho, estou disponível presencialmente em Curitiba e por videochamada para pacientes do Brasil e do exterior.
O que é o IARC?
É a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde, sediada em Lyon, na França, responsável por coordenar a pesquisa global sobre as causas do câncer. Realizei meu pós-doutorado lá entre 2016 e 2017.
O que nutrição materno-infantil tem a ver com pesquisa sobre câncer?
Parte importante da pesquisa do IARC investiga como exposições alimentares na gestação e na primeira infância se associam a riscos de saúde de longo prazo, incluindo cânceres de aparecimento precoce.
O que essa experiência mudou na prática clínica?
A visão longitudinal: os efeitos da nutrição na gestação não se encerram no nascimento, eles se desdobram em saúde cardiovascular, metabólica e até risco oncológico décadas depois. Essa perspectiva está em cada orientação que dou no consultório.


