Quando uma família me procura preocupada com o peso do filho, quase sempre a pergunta é a mesma: "onde a gente errou?". E a minha resposta costuma surpreender. Na maioria dos casos, ninguém errou. A obesidade infantil raramente nasce de um único motivo. Ela é o resultado de uma programação que começa cedo, ainda no útero, segue na amamentação e se firma na fase da introdução alimentar.

Entender isso muda tudo, porque tira o peso da culpa e coloca a atenção onde ela realmente faz diferença: nos primeiros anos de vida.

O peso da criança começa a ser escrito na gravidez

Em um estudo que publicamos na Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, em 2024, avaliei com minha equipe a alimentação de 214 gestantes em Curitiba. A gente queria entender como o que a mãe come durante a gravidez afeta o peso do bebê ao nascer.

+2,7%

de aumento no risco de o bebê nascer grande para a idade gestacional a cada 1% a mais de ultraprocessados na dieta da gestante. E nascer grande demais é um dos primeiros sinais de uma programação metabólica voltada para o ganho de peso.

O que acontece é o seguinte: o excesso de açúcar e de comida de baixa qualidade na gestação faz o bebê receber um fluxo grande de energia e produzir mais insulina, que funciona como hormônio de crescimento. O corpo dele já se organiza, antes de nascer, para acumular gordura com mais facilidade.

Os dois primeiros anos moldam o paladar

Depois do nascimento, os hábitos se formam numa velocidade impressionante. Em outra pesquisa, acompanhei os padrões alimentares de crianças nascidas prematuras, dos 6 aos 23 meses de idade, no Hospital Universitário de Curitiba. A gente identificou dois caminhos bem distintos: um padrão saudável e um padrão não saudável.

O padrão não saudável crescia conforme a criança ficava mais velha. Quanto mais cedo entram os ultraprocessados, mais cedo o risco se enraíza.
Dra. Claudia Choma · Pesquisa com crianças menores de 2 anos

Esse achado me marcou muito. Ele mostra, com dados, que a introdução de guloseimas, salgadinhos de pacote e bebidas adoçadas nos primeiros meses não é um detalhe inofensivo. É o começo de uma trajetória que tende a se firmar com o tempo.

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O que realmente protege

A boa notícia é que as medidas mais eficazes são também as mais simples. Não dependem de produto caro nem de dieta restritiva. Dependem de consistência:

  1. Aleitamento materno exclusivo até os seis meses: o leite materno se ajusta à criança e ajuda a regular o apetite dela
  2. Introdução alimentar com comida de verdade: oferta farta e colorida de alimentos in natura, desde o início
  3. Sem bebidas adoçadas e ultraprocessados nos primeiros anos: sucos de caixinha, refrigerantes e lanches de pacote ficam de fora o máximo possível
  4. Respeito aos sinais de saciedade: nada de obrigar a raspar o prato nem negociar com doce

Esse último ponto é o que mais gente subestima. Quando a gente força a criança a comer além da fome, ou usa a sobremesa como prêmio, atrapalha a capacidade dela de sentir quando está satisfeita. E essa percepção, uma vez bagunçada, cobra o preço lá na frente.

Dica de consultório

Quem decide o quê e quem decide quanto

Uma divisão que mudou a rotina de muitas famílias que acompanho: o adulto decide o que é oferecido e quando, e a criança decide quanto vai comer daquilo. Você cuida da qualidade e do ambiente, e confia no apetite dela para a quantidade. Isso reduz a briga na mesa e devolve para a criança o controle natural sobre a própria fome, que é a melhor defesa contra o excesso de peso.

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Para concluir

Prevenir a obesidade infantil não é vigiar a balança nem proibir a criança de tudo. É cuidar do ambiente alimentar desde a gravidez, oferecer comida de verdade nos primeiros anos e respeitar o corpo da criança. Quanto mais cedo a gente começa, mais leve é o caminho, para ela e para a família.

Para uma orientação feita para o seu filho, atendo presencialmente em Curitiba, no Bigorrilho, e por videochamada para famílias de todo o Brasil.

Perguntas frequentes
A obesidade infantil é culpa da alimentação dos pais?

Não é uma questão de culpa. A obesidade infantil tem início cedo, muitas vezes ainda na gestação, e envolve fatores que vão além da força de vontade da família. O que dá para fazer é intervir cedo, com orientação, ajustando o ambiente alimentar da criança desde os primeiros meses.

Devo obrigar meu filho a comer tudo do prato?

Não. Obrigar a criança a raspar o prato ou usar a sobremesa como recompensa atrapalha a capacidade dela de perceber quando está satisfeita. Respeitar os sinais de saciedade da criança é uma das formas mais importantes de prevenir o excesso de peso a longo prazo.

Quando começar a cuidar do peso da criança?

Antes do que a maioria imagina. O ambiente metabólico da gestação e os dois primeiros anos de vida moldam a forma como o corpo da criança lida com energia. Cuidar da alimentação da gestante e da introdução alimentar é prevenir obesidade, não tratar depois que ela se instala.

Sobre quem escreveu
Dra. Claudia Choma

Nutricionista Materno-Infantil há mais de 37 anos. Pós-doutora pelo IARC/OMS (Lyon, França). Doutora pela UFPR. Ex-Professora Titular do Departamento de Nutrição da UFPR (1992–2026). Ajudou a escrever o Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos do Ministério da Saúde. CRN 8-320.