Ela chegou ao consultório com uma lista no celular. Café, feijão, brócolis, repolho, alho, cebola, glúten, leite, ovo. Cortou tudo isso em poucas semanas, comendo praticamente arroz com frango, e o filho continuava chorando no fim da tarde do jeito que chorava antes. A pergunta dela foi a mesma que eu ouço quase toda semana: "o que mais eu tiro?"
Essa cena se repete tanto que virou, para mim, o retrato mais fiel do que acontece com a dieta da mãe que amamenta e a cólica do bebê. Essa é uma das discussões que a gente faz no grupo de pesquisa que eu coordeno na UFPR, o GENAI, e a conclusão me incomoda o suficiente para escrever isto aqui: a maior parte do que mandam a mãe cortar não tem evidência que sustente. O que tem evidência é o estrago que essa lista faz nela.
O que é cólica, e o que não é
Antes de falar de dieta, vale alinhar do que estamos falando. Cólica infantil é um distúrbio funcional, benigno, que atinge cerca de 1 em cada 5 bebês e costuma se resolver sozinho por volta dos 5 meses. O critério clássico, chamado de regra dos 3, define como choro que dura mais de 3 horas por dia, em 3 ou mais dias por semana, por 3 semanas ou mais. Uma classificação mais recente, chamada Roma IV, reduz essa exigência de duração para 7 dias.
Aqui está o ponto que eu considero mais importante deste texto inteiro: choro causado por uma doença de verdade, como refluxo gastroesofágico ou alergia à proteína do leite de vaca, não é cólica. São coisas diferentes, com investigação diferente e conduta diferente. Se o choro vem acompanhado de sangue ou muco nas fezes, ganho de peso insuficiente, vômitos importantes, lesões de pele persistentes ou diarreia crônica, o quadro deixou de ser compatível com cólica e precisa de avaliação. Eu já escrevi com mais detalhe sobre como diferenciar as duas coisas no artigo sobre alergia à proteína do leite de vaca, porque tratar uma alergia como se fosse cólica atrasa o diagnóstico certo, e o contrário também é um problema: tratar cólica, que passa sozinha, como se fosse alergia.
Por que a mãe corta, mesmo sem evidência
Um estudo qualitativo publicado no Canadian Family Physician entrevistou 21 mães de bebês saudáveis e perguntou por que elas restringiam a própria dieta. A resposta não foi informação técnica. Foi medo de serem julgadas, e o desejo, absolutamente compreensível, de ter um bebê calmo. As participantes relataram cortar cafeína, brócolis, repolho, alho, cebola, alimentos picantes, glúten, feijão, laticínios e ovo, muitas vezes a ponto de sofrerem de verdade com a própria alimentação.
"Eu decidi eliminar todos os alimentos bons."Participante do estudo de Kidd e colaboradores · Canadian Family Physician, 2019
Essa frase é de uma das mães entrevistadas, e ela resume o que eu vejo semana sim, semana também: mulheres inteligentes e bem-intencionadas, chegando perto da privação porque alguém, muitas vezes com boas intenções, disse que era isso que precisava ser feito. Os autores do estudo são diretos: essas mães acreditavam que a própria dieta influenciava o choro do bebê, apesar da evidência científica demonstrar o contrário.
O que a melhor evidência disponível diz
bebês, reunidos em 15 ensaios clínicos randomizados por uma revisão Cochrane sobre modificações na dieta materna para tratar cólica infantil. A certeza dessa evidência, pelos critérios GRADE, foi classificada como muito baixa.
A conclusão dos autores, na tradução mais fiel que eu consigo fazer, é esta: com base na evidência disponível, não somos capazes de recomendar nenhuma intervenção dietética. Não uma, nenhuma. Isso inclui a dieta materna de baixo alergênico, a fórmula hidrolisada, a suplementação de lactase e o extrato de funcho, camomila e melissa. Uma revisão sistemática sueca, publicada na Acta Paediatrica, reforça isso por outro ângulo: a eliminação de leite de vaca da dieta da mãe é uma das condutas mais recomendadas no mundo todo, e mesmo assim, dentro dos critérios dessa revisão, nenhum ensaio clínico randomizado testou essa hipótese de forma direta.
Há um resumo apresentado em congresso, ainda sem publicação como artigo completo revisado por pares, sugerindo que uma dieta mediterrânea sem laticínios reduziu o tempo de choro em bebês amamentados. É um achado preliminar, e os próprios autores reconhecem que os mecanismos ainda precisam ser determinados. Cito porque acho a pergunta legítima, mas seria desonesto dar a um resumo de congresso o mesmo peso de uma síntese como a Cochrane. A pergunta segue aberta.
Esse padrão, cortar por medo em vez de evidência, eu já vi se repetir em outro contexto: quando saiu uma revisão sobre metais pesados no leite materno, muita gente quis desmamar por precaução, e a ciência também não sustentava isso. Escrevi sobre esse caso no artigo sobre metais pesados no leite materno, porque o padrão é sempre o mesmo, medo generalizado diante de uma evidência bem mais específica.
O gás do feijão não passa pelo leite
Uma das explicações mais repetidas por aí é que alimentos como feijão, brócolis e repolho fermentam no intestino da mãe, produzem gás, e esse gás passa para o leite e incomoda o bebê. Isso não acontece. Os gases produzidos pela fermentação intestinal ficam no intestino de quem os produziu, eles não atravessam para a corrente sanguínea nem para o leite. O que de fato pode passar para o leite são proteínas, como a proteína do leite de vaca, e isso é uma conversa completamente diferente, com outro nome e outra conduta, que eu detalho no artigo sobre alergia à proteína do leite de vaca.
Também vale desmontar duas expressões que ouço quase toda consulta: "leite fraco" e "leite forte". Nenhuma das duas existe como categoria fisiológica. O leite materno se adapta à criança, mas não fica fraco a ponto de não sustentar, nem forte a ponto de fazer mal. Se o seu bebê chora, o motivo quase nunca está na composição do seu leite.
O que o seu leite está fazendo enquanto você acha que ele é o problema
Essa é a parte que eu mais gosto de explicar, porque ela vira a história de cabeça para baixo. O leite materno contém entre 100 e 1.000 vezes mais oligossacarídeos do que o leite de vaca, com mais de 250 tipos diferentes. E aqui vem o detalhe que muda tudo: o bebê não consegue digerir a maior parte desses oligossacarídeos. Eles não são alimento para ele.
Eles são alimento para as bifidobactérias do intestino dele. No primeiro ano de vida, essas bactérias colonizam praticamente 100% dos bebês amamentados e podem chegar a compor até 90% da microbiota intestinal. Elas produzem ácidos graxos de cadeia curta, entre eles o butirato, que ajudam a manter a integridade da parede do intestino e têm ação antiinflamatória. Quando o bebê desmama ou passa a receber fórmula, essa população de bifidobactérias cai.
Os oligossacarídeos do leite materno não servem para o bebê digerir. Ele não consegue. Eles são alimento para as bactérias do intestino dele. A mãe que está convencida de que o leite dela é o problema está, na verdade, alimentando o sistema que vai proteger aquele intestino pelos próximos anos.Dra. Claudia Choma · Grupo de pesquisa GENAI, UFPR
Probióticos: o que dá para dizer com honestidade
A cepa com melhor evidência para cólica é o Lactobacillus reuteri DSM 17938. Ainda assim, a certeza dessa evidência é baixa. Uma revisão Cochrane com 1.886 bebês mostrou que probióticos não previnem novos casos de cólica, mas reduziram o tempo de choro diário em cerca de 32 minutos no conjunto dos estudos, e cerca de 44 minutos quando se olha só para o L. reuteri. O efeito parece mais consistente em bebês amamentados do que nos que usam fórmula.
Simeticona, um dos remédios mais vendidos para cólica no Brasil, não mostrou efeito clinicamente relevante nas revisões que conferi. Inibidor de bomba de prótons também não. Entre os fitoterápicos, o extrato de erva-doce aparece como o mais promissor numa revisão de revisões, mas com ressalvas importantes sobre a qualidade dos estudos incluídos. Isso não é uma recomendação para dar chá ao seu bebê: a Sociedade Brasileira de Pediatria desaconselha o uso de chás por conta própria em bebês pequenos, e eu sigo essa orientação. Se você quiser considerar um probiótico, a conversa certa é com quem acompanha o seu bebê, não a escolha de uma marca no corredor da farmácia.
A parte que ninguém fala: você
No meio de tanta ciência sobre bactéria e oligossacarídeo, tem um dado que eu acho mais importante do que todos os outros: a cólica infantil está associada a exaustão materna, e essa exaustão tem consequências reais, entre elas maior risco de depressão materna e de desmame precoce. Uma revisão sueca sobre o tema resume isso melhor do que eu conseguiria: o principal desafio não é curar o bebê que chora demais nos primeiros meses, é atravessar esse período sem que a família se machuque no processo.
Se você já sentiu vontade de sair do quarto, de chorar junto, ou até raiva, porque o choro não para e você não sabe mais o que fazer, isso é humano e é muito mais comum do que qualquer pessoa te conta. Não te torna uma mãe ruim, torna você alguém no limite, o que é diferente. Quando a exaustão chegar nesse ponto, uma atitude de cuidado, e não de abandono, é colocar o bebê em um lugar seguro, como o berço, sair do cômodo por alguns minutos, respirar, e voltar depois. Um bebê chorando sozinho e seguro no berço por alguns minutos está bem. Um adulto no limite segurando esse bebê no colo, às vezes, não está.
Eu sou nutricionista, não trabalho com saúde mental, e não é minha função avaliar isso à distância. O que posso dizer é que pedir ajuda, seja da sua rede de apoio, seja de um profissional de saúde mental, é parte do cuidado com o seu bebê tanto quanto qualquer orientação nutricional. Se você chegou a esse ponto, procure apoio. Você não precisa atravessar isso sozinha.
O que realmente importa fazer
- Descarte o que não é cólica antes de mexer na dieta. Isso é avaliação do pediatra, não suposição em casa.
- Não corte alimentos por conta própria, e principalmente não corte vários de uma vez.
- Se houver suspeita real de alergia à proteína do leite de vaca, faça a eliminação com acompanhamento profissional e com teste de reintrodução programado, não para sempre e não no escuro.
- Cuide da sua própria alimentação. Ela sustenta a lactação e a sua saúde, mesmo quando não é a causa da cólica.
- Monte uma rede de apoio e combine um plano para os piores horários do dia, geralmente o fim da tarde.
Quando o choro não é cólica
Procure avaliação se aparecer qualquer um destes sinais: falha no ganho de peso, sangue ou muco nas fezes, vômitos importantes, lesões de pele persistentes, diarreia crônica, recusa alimentar, febre, ou choro que começa depois dos 5 meses ou que não segue nenhum padrão. Cólica é um diagnóstico de bebê que cresce bem e está saudável entre as crises.
Para concluir, com honestidade
A cólica é uma das poucas situações da pediatria em que o melhor tratamento disponível ainda é atravessar o tempo com apoio. Isso é frustrante para quem, como eu, gosta de resolver as coisas com dado e conduta. Mas é a verdade, e eu prefiro te dizer isso com honestidade do que vender uma solução que a ciência ainda não encontrou.
O que dá para fazer, com segurança, é parar de cortar comida no escuro. Sua alimentação importa para você e para a amamentação, mas a lista de eliminação que provavelmente te passaram não tem o respaldo que prometeram. Devolver comida para você não é detalhe nessa história, é parte do cuidado. E se o seu filho já está comendo os primeiros alimentos, ou está perto disso, vale olhar com calma para essa fase também no artigo sobre os primeiros sabores, porque a cólica passa e a relação com a comida continua se construindo depois dela.
Quais alimentos eu devo cortar da minha dieta para o meu bebê não ter cólica?
Pela melhor evidência disponível, nenhum, por conta própria. A revisão Cochrane reuniu 15 ensaios clínicos com 1.121 bebês e concluiu que a certeza da evidência é muito baixa e que não é possível recomendar nenhuma intervenção dietética. Isso não significa que alimentação nunca importe: significa que cortar alimentos no escuro costuma trazer mais prejuízo para você do que benefício para o bebê. Se existir suspeita clínica de alergia à proteína do leite de vaca, aí a conversa é outra, e precisa de acompanhamento.
Como saber se é cólica ou alergia à proteína do leite de vaca?
Cólica é um diagnóstico de bebê que cresce bem, ganha peso e fica saudável entre as crises. Quando aparecem sangue ou muco nas fezes, falha de ganho de peso, vômitos importantes, lesões de pele persistentes ou diarreia crônica, o quadro deixa de ser compatível com cólica e precisa de avaliação. Choro causado por refluxo gastroesofágico ou por alergia ao leite de vaca não é cólica, e tratar como se fosse atrasa o diagnóstico certo.
Com quantos meses a cólica passa?
Ela costuma se resolver sozinha por volta dos 5 meses. Pelos critérios de Roma IV, os sintomas começam e terminam antes dessa idade. É uma condição benigna e autolimitada, o que não a torna fácil de atravessar.
Probiótico para cólica funciona?
A cepa com melhor evidência é o Lactobacillus reuteri DSM 17938, e ainda assim a certeza é baixa. A revisão Cochrane mostrou que probióticos não previnem cólica, mas que o tempo de choro diário caiu em torno de 32 minutos no conjunto dos estudos, e cerca de 44 minutos quando se olha só o L. reuteri. O efeito é mais consistente em bebês amamentados do que nos que usam fórmula. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que probiótico seja usado com prescrição, não por iniciativa própria.
Estou exausta e sinto raiva quando ele chora. Isso é normal?
É humano, é frequente e não faz de você uma mãe ruim. O choro prolongado é um dos maiores estressores da vida de qualquer adulto, e a literatura reconhece a associação entre cólica, exaustão e depressão materna. Se você chegar ao limite, colocar o bebê em um lugar seguro, como o berço, sair do cômodo, respirar alguns minutos e voltar é uma atitude de cuidado, não de abandono. E é um bom momento para pedir ajuda, de rede de apoio ou de profissional.


